Os baixos salrios pagos na maior parte dos pases latino-americanos tendem a ser um foco de profundas divergncias entre os EUA e seus vizinhos do Sul, quando se iniciarem as negociaes concretas para o estabelecimento da Afta (Zona Americana de Livre Comrcio, em ingls).

A Afta ser proposta formalmente nos dois documentos a serem assinados domingo, em Miami, pelos 34 chefes de governo dos pases americanos, reunidos na chamada Cpula das Amricas, que se inicia sexta-feira.

Mas, nas discusses preliminares sobre ambos os textos, a questo dos baixos salrios foi uma das mais difceis de se contornar, para se chegar a uma convergncia nos documentos j prontos para a assinatura dos governantes.

A tese dos norte-americanos (e tambm dos europeus)  a de que os salrios baixos pagos em quase toda a Amrica Latina configuram uma espcie de  dumping social.

O "dumping" convencional caracteriza-se pelo lanamento, no mercado internacional, de produtos a preo de custo ou at abaixo, para conquistar mercados.

Com o baixo nvel salarial dos pases ao Sul do Rio Grande, cria-se, na viso norte-americana, uma concorrncia desleal com a produo dos EUA, obviamente encarecida pelo fator salrio.

Mas os latinos, capitaneados pelo Brasil, presidente de turno do Grupo do Rio, rejeitaram a tentativa norte-americana de vincular o tema salarial  abertura comercial inerente  Afta.

O argumento utilizado  o de que essa questo ainda est sendo discutida em organismos multilaterais, como o Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comrcio, a ser substitudo em janeiro pela Organizao Mundial de Comrcio) e a OIT (Organizao Internacional do Trabalho).

Chegou-se a uma conciliao tipicamente diplomtica: o tema salrios no mais figura na parte de proposies operativas do documento batizado de  Plano de Ao.

Mas  bvio que a manobra serve apenas para jogar para o futuro a discusso, dado que a diferena de enfoque  bastante grande.

Os EUA pretenderam vincular tambm o respeito ao meio ambiente como pr-condio para o livre comrcio, o que foi igualmente rejeitado pelos latinos.

No que eles sejam contra o respeito ao meio ambiente (ningum, alis, diz que ).

So contra a vinculao entre um tema e outro, porque criaria o que a diplomacia brasileira chama de  neoprotecionismo.

Traduzindo: a pretexto de que os baixos salrios e o desrespeito ao meio ambiente representam uma concorrncia desleal com a produo norte-americana, os EUA (e a Europa) poderiam impor medidas protecionistas.

O  Plano de Ao  o documento mais substantivo dos dois a serem assinados em Miami.

O outro  uma  Declarao Poltica, que, como tal, d apenas as diretrizes gerais, em tom bastante genrico.

Exemplo: o documento diz que  os presidentes e chefes de Estado eleitos nas Amricas comprometem-se a promover a prosperidade, os valores democrticos e institucionais e a segurana no hemisfrio.

No  Plano de Ao, entram propostas de medidas concretas para que se atinjam as metas expostas no texto poltico.

Na questo principal da reunio, a criao da Afta, o documento poltico limita-se a dizer que  as Amricas esto unidas na busca da meta de prosperidade por meio do livre mercado, da integrao hemisfrica e do desenvolvimento sustentado.

J o  Plano de Ao dever fixar uma data concreta (talvez 2005), no para estabelecer a Afta, mas para concluir os preparativos, a serem iniciados em 1995, com vistas  sua criao.
